domingo, 4 de agosto de 2013

ameaça preferida



Meu deus, como a arte a tem chamado! Gritando, cada vez mais de perto, a arte que se move como um corpo, não mais elemento do distante plano imagético. Corre sobre pernas longas, esconde-se nas esquinas, mas sempre espia e ameaça aproximar-se. Então, ante o temor muito bem disfarçado de aborrecida indiferença, ela arfa e recomeça. Não sou uma ameaça!, grita a arte, dissolvendo-se a cada novo desviar dos olhos. Como corre!

Ela tem medo de que sua ameaça preferida desista um dia, à revelia da angústia sob as camadas externas da alma.Talvez ela não veja com clareza a culpa nos braços de outro, dessa pressa pragmática maldita que se desdobra e rompe sonhos, desejos cheios de cor tornando-se insípidos, ralos e frios. Não corre, mas me espera, por favor!, suplica numa desculpa tomada de outras formas: Lê, lê. Lê de tudo, escreve mais um pouco. Assiste àquelas películas obsoletas, clássicos dos solitários, dos vagabundos desajustados. Quando do choro consciente pesado nos olhos, ela reconhece no silêncio das madrugadas: It's nobody's fault, but mine.



O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.

(…)
Ali Ahmed Said

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Maleável Existência



É sempre bom parar e fazer um balanço das mudanças na sua vida ao longo do tempo. Outro dia eu reconheci que, em essência, sou a mesma, mas, definitivamente, muitas coisas em mim mudaram. Desde o momento em que me dei conta de fazer parte de um grupo na escolinha, lá nos meus primeiros anos, comecei a ter consciência do tempo e de como ele muda as coisas. Lá estava eu, aquela menininha tímida que, em casa, subia no cajueiro, corria descalça na areia com os primos, que conhecia todo um mundo (aquela pequena dimensão entre o quintal e a porta da frente), lançada num lugar novo onde nada era familiar. Foi meio sem querer, mas eu percebi: crescer é sair da sua zona de conforto e conhecer todas aquelas pessoas diferentes. Em 'conhecer' fica incluído o necessário exercício de lidar tanto com as qualidades quanto com os defeitos de todas elas. Até então, sendo filha única, eu só aceitava as coisas do meu jeito, e a arte de argumentar para entrar em consenso ainda não era do meu domínio. 


Depois, já conformada com o fato de que nem sempre as coisas seriam do meu jeito, eu achava que aquilo era tudo o que havia para aprender. Mesmo deixando que eles fizessem como quisessem, secretamente eu tinha certeza de que à minha maneira teria sido melhor. Meio arrogante, mas só em segredo. Descobri mais tarde que, mesmo que silenciosa, a arrogância não me servia para nada além de estragar as amizades. Ser uma das duas únicas meninas numa sala com um bando de meninos enérgicos e teimosos foi a melhor escola para aprender sobre essa e muitas outras coisas que me deixariam pronta para levar as situações mais na esportiva.


Sempre mais observadora que participativa, descrever lugares, pessoas e acontecimentos virou meu passatempo. Com o tempo, fui adicionando floreios às descrições e, um pouco mais tarde, foi inevitável compreender que escrever era o que eu mais amava fazer. O tempo muda e leva algumas coisas, mas o que é essência fica ali pra sempre, e não há nada mais intrínseco em mim que o amor pelo jogo de palavras. Agora, além das palavras escritas, quero vivê-las, fazer delas memórias palpáveis de momentos nos quais dei uma chance à oportunidade e me joguei. Muita coisa mudou nos últimos meses, eu me sinto diferente. É incrível deixar o mundo das ideias e mergulhar na dimensão cheia de possibilidades da prática. Estou vivendo e, sem sombra de dúvidas, aprendendo muito  sobre essa minha maleável existência. Que venham as mudanças, mas que permaneça a essência!




 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Por distração



Ela fervilhava de raiva, batendo perna pela rua. Nem se deu ao trabalho de pensar que aquela cara amarrada e a pressa levantariam dúvidas, causariam má impressão. Só sabia que, nos últimos dias, sua paciência vinha num declínio contínuo. Era a frustração de uma ansiedade em vão. Esperar por nada. Pelo repetitivo nada. 


De que adiantava um amor se havia um prazo de validade? Depois que ele foi embora, ficou aquela dúvida. Se valia a pena. Quer dizer, ama-se hoje, mas até quando? Não que ela própria fosse o exemplo de estabilidade sentimental. Porque não, ela não era. Mas a dúvida que passara a atormentá-la pelas esquinas, por cima do ombro, era bem mais ampla, generalista. Era uma pergunta dirigida a algo maior, talvez à razão para se amar um homem, para entregar corpo e coração. Pra quê?

Entrou na livraria do meio do quarteirão, respirando um pouco mais devagar, impactada pelo aroma reconfortante de café fresco. Qualquer lugar para se estar entre livros e tomar um bom café era capaz de amenizar seus furacões internos. Debruçou-se sobre o balcão de lançamentos, só por distração, e escolheu um exemplar para folhear.

Demorou um pouco mais do que o comum para passar a página, tanto que pareceria patético para quem estivesse observando. Nunca havia, ela ergueu o rosto rapidamente pra confirmar. Mas, daquela vez, não. Eles cruzaram o olhar numa fração de segundo, mas não foi difícil deduzir que aquele sorriso divertido dele quando voltou à leitura era dela. Era dela porque, certamente, não devia ser tão árdua quanto ela fez parecer a tarefa de folhear um livro. E ele havia visto.

Fazia tanto tempo que não corava de tal maneira, que a surpreendeu a rapidez com que as bochechas podiam atingir aquela temperatura. Pela visão periférica, ela reparou no momento em que ele devolveu o livro à pilha e veio contornando o balcão até bem perto. Casualmente, é claro, ela pensou. Não que ele estivesse se aproximando com alguma intenção.

Em questão de segundos, ele estava tão próximo que parecia a meio passo de cumprimentá-la. Suas mãos esbarraram quando iam selecionar o mesmo livro. Ela virou o rosto para encará-lo e pedir desculpas, ele fez o mesmo. Com menos angústia e bem menos intenção de se desculpar. Era um olhar tão seguro e um sorriso tão sereno que, por um instante, ela pensou que estava sozinha naquela fantasia platônica, que ele teria o mesmo sorriso no rosto para qualquer outro desconhecido em quem esbarrasse sem querer. De repente não tinha mais certeza se aquele risinho de antes foi mesmo para ela.

Ele se desculpou logo depois dela, deu de ombros como quem não se sente nenhum pouco ofendido e ofereceu o livro. ‘Mesmo?’, e ele balançou a cabeça: ‘Mesmo’. Ela pegou o livro e, ainda sem graça, abriu. ‘Se precisar de ajuda pra virar a página...’, ele pressionou os lábios, maquiando o sorriso depois do gracejo.

O engraçado foi como aquilo fez um estranho sentido em vários aspectos. Virar a página. Todos aqueles últimos dias recusando-se a se divertir por remoer continuamente um amor acabado. Fechado e lacrado. Despachado. Ela riu baixinho. Ele acompanhou, lançando um olhar rápido na sua direção antes de caçar outro livro.

Às vezes, a distração é o melhor remédio. Poder se distrair vivendo. 

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Música de inspiração: Dreaming with a Broken Heart

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"Ideologia, eu quero uma pra viver"?


A gente fala muito sobre ideologia, mas será que a gente entende a dimensão que ela pode tomar? Nos livros de História, aprendemos que ideologias foram e são defendidas tanto com a arma quanto com o papel assinado. Acordos são firmados em nome de ideologias, muitas delas buscando o bem estar geral. Outras, beneficiando uma classe seleta. Seja qual for a intenção, alguém vai sair insatisfeito. E alguém vai sair glorioso.

O míni Aurélio, dicionário da língua portuguesa, define ideologia das seguintes maneiras: 1. Conjunto de ideias que tem por base uma teoria política ou econômica. 2. Modo de ver, próprio de um indivíduo ou de uma classe.

Vou começar admitindo algo que pode perplexar - porque, a princípio, não aparenta manter relação nenhuma com o assunto - mas, sem dúvida, foi o que me motivou a escrever esse texto: Eu sou irracionalmente apaixonada pelo filme da Fox Animation Studios Anastasia. Certo. O que isso tem a ver? Vamos lá.

O filme é de 1997, eu tinha 5 anos, mas ao longo dos anos seguintes, assisti inúmeras vezes. Resumindo: é um clássico da minha infância. Um pouco mais velha e descobrindo a paixão por História, eu comecei a me interessar pela verdadeira vida de Anastasia. Eu sabia, havia muito tempo, que, mesmo baseado num fato histórico, o desenho animado omitia e inventava muita coisa. Claro, porque a história real não daria um filme infantil, por ser bem mais trágica e complexa. Apenas recentemente - pra ser mais exata, dois dias atrás - eu comecei as investigações. Vou ser breve, porque, caso contrário, vou acabar me prolongando e fugindo do tema:

Anastasia Nikolaevna Romanov e os outros membros da família Romanov, a última dinastia imperial da Rússia, foram executados por soldados bolcheviques, sob ordem de Lênin, considerado líder da Revolução Russa (1917). A execução foi em nome da transição da Rússia de monarquia para república socialista. Os tais ideais socialistas revolucionários foram impostos com violência brutal, e, ainda que o czar Nicolau II não fosse um governante muito preocupado com as questões do seu povo, a tortura psicológica e a brutalidade da morte a que foram sentenciados ele, a esposa e suas crianças não se justifica. Sacrificados por uma ideologia.

Crianças friamente assassinadas porque era a medida estrategicamente lógica a se tomar por aqueles que não desejavam ceder o poder a futuras exigências dos herdeiros do trono russo. Crianças mortas porque alguém estava exigindo que o poder trocasse de mãos. Não estou santificando Nicolau II nem afirmando que os anos em que a dinastia Romanov governou a Rússia foram só flores, até porque, estudando História, você descobre que ninguém é completamente bom, muito menos os monarcas. Mas, em especial, a morte de crianças, da realeza ou não, jamais deixará de me comover profundamente.

A subjetividade humana é tão pronunciada que ninguém concorda em absolutamente tudo. Mesmo aqueles indivíduos que se reconhecem como um grupo de valores em comum são incapazes de afirmar que pensam da mesma maneira sobre tudo, inclusive sobre os tais valores que partilham, porque um interpreta a mesma questão de uma forma, enquanto o outro interpreta de outra. Mas escapando da discussão sobre as múltiplas interpretações, eu quero voltar ao foco desse texto, que é a ideologia como uma força capaz tanto de promover mudanças revolucionárias quanto de gerar divergências inconciliáveis. 

Eu entendo que ideologias não têm todas uma dimensão absurda que alcança multidões, mas mesmo aquelas que escolhemos como nosso modo individual de ver as coisas devem ser reguladas de tempos em tempos. Quando começamos a defender a unhas e dentes uma ideia, é hora de parar e refletir. Por que tanto entusiasmo? Será que estou pensando da mesma forma há tanto tempo que deixei de questionar e passei a viver nisso mecanicamente? Aquele argumento que tentou derrubar o meu pensamento, será que ele não poderia ser, de fato, válido? Penso que, como seres racionais em constante mutação, podemos, sim, nos permitir a mudar de opinião, a questionar o que está posto e aceitar o caráter mutável de qualquer situação. Nós temos a capacidade de avaliar quando estamos sendo extremos. Quando a defesa daquilo em que acreditamos nos leva às últimas consequências, é porque já saímos de controle há muito tempo.

Percebemos quando um assunto é complexo quando qualquer debate sobre ele se torna polêmico. Acredito que as discussões ideológicas continuarão polemizando pelo mundo. Também me sinto na obrigação de permanecer refletindo sobre ideologia, avaliando os dois lados da questão, mantendo a paixão por um bom debate de ideias, mas desapegada de qualquer pensamento por reconhecer que ele sempre pode ser questionado.

Que sejamos apaixonados por nossas ideologias, mas ainda mais pelo questionamento e pela paz!

Anastasia em 1907, aos 6 anos de idade.

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