quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O ideal de beleza


Até algum tempo atrás, eu não me dava conta da massiva diversidade cultural desse planeta. Acostumada a devorar filmes norte-americanos, europeus e brasileiros, eu me esquecia completamente que, além de "nós", existem muitos outros povos com suas respectivas idiossincrasias e concepções de mundo. Falando no uso do "nós", eu faço questão de relembrar a mim mesma que essa palavrinha aparentemente inofensiva, nesse contexto, tem um caráter marginalizante absurdo. Acho importante me policiar sempre e buscar uma forma de não enxergar com um olhar exclusivamente ocidental. Não que seja tão difícil pra mim, porque não é. Por alguma razão que eu desconheço, o contato com culturas que a mim são tão diferentes me desperta uma sensação de estranheza curiosa, não segregante. 

Dito isso, foi com algum entusiasmo que eu comecei a ler um artigo sobre as mudanças que o ideal de beleza feminina sofreu ao longo de 100 anos. "The 'perfect body' has changed a lot over the past 100 years" era o título. Logo fiquei super incomodada, porque o título me levou a criar a expectativa de que veria aquelas mudanças do ponto de vista de várias sociedades, mas, para minha profunda decepção, o artigo era todo baseado numa concepção ocidental europeia/americana e, além disso, exclusivamente branca. Um tédio, pra dizer o mínimo.

Como será que os índios, por exemplo, veem a beleza ao longo da história? Isso pra ser bem generalizante, porque a população indígena também costumava ser variada e distribuída em diferentes tribos, por vezes inimigas. Será que cada tribo tinha/tem o seu ideal de beleza? Será que existia mesmo um ideal para eles? 

Quer dizer, quem dita o ideal de beleza nas sociedades? Todo mundo diz que beleza é relativo, mas pra muitos isso é só falácia, porque acabam se condicionando de acordo com o que a maioria considera belo. Será que é uma maioria mesmo quem dita? Eu sinceramente não tenho um ideal, portanto reforço que é relativa, sim. Beleza é o que agrada aos olhos? Acho superficial demais e até queria essa experiência - passageira! - de ver a beleza como puramente física pra saber como é se sentir atraído por alguém dessa forma. Mas, além de mulher - complexa por natureza - sou essa criatura esquisita chamada Fernanda, então comigo a coisa é bem diferente: Beleza é uma sensação de paz.  

A gente logo conclui que ideal mesmo é uma convenção bem individual e que tentar falar sobre isso num contexto coletivo é complicado. Então, fica aqui minha reflexão do dia (minha cabeça não para!) que, certamente, vai se estender por mais uns dias até essa minha mente insaciável captar outro tema e decidir enlouquecer em mais uma análise infindável! Mereço mesmo...

domingo, 4 de agosto de 2013

ameaça preferida



Meu deus, como a arte a tem chamado! Gritando, cada vez mais de perto, a arte que se move como um corpo, não mais elemento do distante plano imagético. Corre sobre pernas longas, esconde-se nas esquinas, mas sempre espia e ameaça aproximar-se. Então, ante o temor muito bem disfarçado de aborrecida indiferença, ela arfa e recomeça. Não sou uma ameaça!, grita a arte, dissolvendo-se a cada novo desviar dos olhos. Como corre!

Ela tem medo de que sua ameaça preferida desista um dia, à revelia da angústia sob as camadas externas da alma.Talvez ela não veja com clareza a culpa nos braços de outro, dessa pressa pragmática maldita que se desdobra e rompe sonhos, desejos cheios de cor tornando-se insípidos, ralos e frios. Não corre, mas me espera, por favor!, suplica numa desculpa tomada de outras formas: Lê, lê. Lê de tudo, escreve mais um pouco. Assiste àquelas películas obsoletas, clássicos dos solitários, dos vagabundos desajustados. Quando do choro consciente pesado nos olhos, ela reconhece no silêncio das madrugadas: It's nobody's fault, but mine.



O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.

(…)
Ali Ahmed Said

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Maleável Existência



É sempre bom parar e fazer um balanço das mudanças na sua vida ao longo do tempo. Outro dia eu reconheci que, em essência, sou a mesma, mas, definitivamente, muitas coisas em mim mudaram. Desde o momento em que me dei conta de fazer parte de um grupo na escolinha, lá nos meus primeiros anos, comecei a ter consciência do tempo e de como ele muda as coisas. Lá estava eu, aquela menininha tímida que, em casa, subia no cajueiro, corria descalça na areia com os primos, que conhecia todo um mundo (aquela pequena dimensão entre o quintal e a porta da frente), lançada num lugar novo onde nada era familiar. Foi meio sem querer, mas eu percebi: crescer é sair da sua zona de conforto e conhecer todas aquelas pessoas diferentes. Em 'conhecer' fica incluído o necessário exercício de lidar tanto com as qualidades quanto com os defeitos de todas elas. Até então, sendo filha única, eu só aceitava as coisas do meu jeito, e a arte de argumentar para entrar em consenso ainda não era do meu domínio. 


Depois, já conformada com o fato de que nem sempre as coisas seriam do meu jeito, eu achava que aquilo era tudo o que havia para aprender. Mesmo deixando que eles fizessem como quisessem, secretamente eu tinha certeza de que à minha maneira teria sido melhor. Meio arrogante, mas só em segredo. Descobri mais tarde que, mesmo que silenciosa, a arrogância não me servia para nada além de estragar as amizades. Ser uma das duas únicas meninas numa sala com um bando de meninos enérgicos e teimosos foi a melhor escola para aprender sobre essa e muitas outras coisas que me deixariam pronta para levar as situações mais na esportiva.


Sempre mais observadora que participativa, descrever lugares, pessoas e acontecimentos virou meu passatempo. Com o tempo, fui adicionando floreios às descrições e, um pouco mais tarde, foi inevitável compreender que escrever era o que eu mais amava fazer. O tempo muda e leva algumas coisas, mas o que é essência fica ali pra sempre, e não há nada mais intrínseco em mim que o amor pelo jogo de palavras. Agora, além das palavras escritas, quero vivê-las, fazer delas memórias palpáveis de momentos nos quais dei uma chance à oportunidade e me joguei. Muita coisa mudou nos últimos meses, eu me sinto diferente. É incrível deixar o mundo das ideias e mergulhar na dimensão cheia de possibilidades da prática. Estou vivendo e, sem sombra de dúvidas, aprendendo muito  sobre essa minha maleável existência. Que venham as mudanças, mas que permaneça a essência!




 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Por distração



Ela fervilhava de raiva, batendo perna pela rua. Nem se deu ao trabalho de pensar que aquela cara amarrada e a pressa levantariam dúvidas, causariam má impressão. Só sabia que, nos últimos dias, sua paciência vinha num declínio contínuo. Era a frustração de uma ansiedade em vão. Esperar por nada. Pelo repetitivo nada. 


De que adiantava um amor se havia um prazo de validade? Depois que ele foi embora, ficou aquela dúvida. Se valia a pena. Quer dizer, ama-se hoje, mas até quando? Não que ela própria fosse o exemplo de estabilidade sentimental. Porque não, ela não era. Mas a dúvida que passara a atormentá-la pelas esquinas, por cima do ombro, era bem mais ampla, generalista. Era uma pergunta dirigida a algo maior, talvez à razão para se amar um homem, para entregar corpo e coração. Pra quê?

Entrou na livraria do meio do quarteirão, respirando um pouco mais devagar, impactada pelo aroma reconfortante de café fresco. Qualquer lugar para se estar entre livros e tomar um bom café era capaz de amenizar seus furacões internos. Debruçou-se sobre o balcão de lançamentos, só por distração, e escolheu um exemplar para folhear.

Demorou um pouco mais do que o comum para passar a página, tanto que pareceria patético para quem estivesse observando. Nunca havia, ela ergueu o rosto rapidamente pra confirmar. Mas, daquela vez, não. Eles cruzaram o olhar numa fração de segundo, mas não foi difícil deduzir que aquele sorriso divertido dele quando voltou à leitura era dela. Era dela porque, certamente, não devia ser tão árdua quanto ela fez parecer a tarefa de folhear um livro. E ele havia visto.

Fazia tanto tempo que não corava de tal maneira, que a surpreendeu a rapidez com que as bochechas podiam atingir aquela temperatura. Pela visão periférica, ela reparou no momento em que ele devolveu o livro à pilha e veio contornando o balcão até bem perto. Casualmente, é claro, ela pensou. Não que ele estivesse se aproximando com alguma intenção.

Em questão de segundos, ele estava tão próximo que parecia a meio passo de cumprimentá-la. Suas mãos esbarraram quando iam selecionar o mesmo livro. Ela virou o rosto para encará-lo e pedir desculpas, ele fez o mesmo. Com menos angústia e bem menos intenção de se desculpar. Era um olhar tão seguro e um sorriso tão sereno que, por um instante, ela pensou que estava sozinha naquela fantasia platônica, que ele teria o mesmo sorriso no rosto para qualquer outro desconhecido em quem esbarrasse sem querer. De repente não tinha mais certeza se aquele risinho de antes foi mesmo para ela.

Ele se desculpou logo depois dela, deu de ombros como quem não se sente nenhum pouco ofendido e ofereceu o livro. ‘Mesmo?’, e ele balançou a cabeça: ‘Mesmo’. Ela pegou o livro e, ainda sem graça, abriu. ‘Se precisar de ajuda pra virar a página...’, ele pressionou os lábios, maquiando o sorriso depois do gracejo.

O engraçado foi como aquilo fez um estranho sentido em vários aspectos. Virar a página. Todos aqueles últimos dias recusando-se a se divertir por remoer continuamente um amor acabado. Fechado e lacrado. Despachado. Ela riu baixinho. Ele acompanhou, lançando um olhar rápido na sua direção antes de caçar outro livro.

Às vezes, a distração é o melhor remédio. Poder se distrair vivendo. 

______________________________________________
Música de inspiração: Dreaming with a Broken Heart
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...